Existe beleza na rotina?

7h10 da manhã: o indesejável som do despertador interrompe o sono profundo. O primeiro desejo do dia é que aquele momento durasse, pelo menos, mais uns dez longos minutos.

Entre o vai-e-vem dos pontos de ônibus e estações de metrô, a vida começa. Eu seria hipócrita se dissesse que o caos da manhã é um tormento para mim. Gosto de reparar as pessoas, de perceber os detalhes, de ouvir as conversas e canções, de saborear a leitura alheia.

Amores que se despedem, encontros – esperados e principalmente inesperados –, o trânsito, o calor humano. Meu dia a dia tem gosto das peculiaridades paulistanas. Desejo no auge do meu stress largar tudo e morar praia. Correr ao nascer ou pôr do sol, viver tranquila. Mas não.

  Entre os meus passos apressados e olhar perdido eu admiro. Olho para todos esses detalhes com carinho. No final, encosto a cabeça no travesseiro e me preparo para o amanhã. Entre suspiros aliviados de mais um dia, eu sorrio e tenho a certeza que existe beleza no cotidiano.


Das coisas que fiz e do que aprendi

Recentemente me peguei tendo que responder a uma das questões mais difíceis da minha vida. A pergunta, simples, se referia a quando/em que momento decidi ser jornalista. Eu, que já estava passando por um momento de indecisão fiquei ainda mais confusa. Não era um lapso de memória, muito menos uma questão de falta de opção.

A primeira crise da minha vida veio tardiamente aos 22 anos. Não duvidei da profissão, mas sim das minhas escolhas. Elas estariam sendo feitas da melhor forma? Na verdade, como podemos saber o que é certo?

Resolvi voltar ao princípio básico de que devemos buscar a felicidade. No trabalho, na carreira, com os amigos e família. Uma pequena parte influencia em todo o resto. Parece banal, mas não é. Abrimos mão de muita coisa em troca de outras. Nesta troca, muitas vezes, nos perdemos.

Larguei tudo e decidi recomeçar. Entendi que não tem como sabermos como será o amanhã, mas que somos nós, e apenas nós, que o fazemos.

Também percebi que não existe fórmula certa para não cair nas armadilhas da vida. Existe o desejo simples de felicidade. E acreditem ou não, ela é uma questão de escolha, ou como diz uma bela música, “é uma questão de ser”.


Admirar é amar com os olhos

Certa vez li essa citação em algum lugar. Confesso que não lembro onde, quando, nem ao menos a quem pertence. Sei, entretanto, que não dei a ela a devida importância e nem acreditei em sua veracidade.

Anos depois, aprendi que para amar alguém é preciso admirar. Antes do beijo de tirar o fôlego e dos abraços feitos sob medida, é preciso conhecer as qualidades, reconhecer os defeitos e, mesmo assim, querer compartilhar cada segundo.

 É preciso saber observar minuciosamente cada detalhe.  O sorriso cativante, o jeito doce e convincente de explanar ideias, a forma como os pés se entrelaçam nas pernas e de como a cabeça procura os braços. É saber perceber as entrelinhas das frases ditas ao não acaso, entender que cada imperfeição é o segredo do encantamento e ver que a felicidade alheia é a sua também.

 Aprendi, principalmente, que para se viver um amor é preciso se despir do orgulho e se encher de coragem. Coragem para admitir que assim como amar, admirar dispensa qualquer complemento.


Canção Nº1 – João e Maria

Estranho seria se eu não tivesse me apaixonado pelo Chico. Não pelo compositor dos tempos de ditadura, nem por aquele que consegue entender as mulheres melhor do que elas mesmas. Eu me apaixonei tardiamente por um Chico ingênuo, quase infantil, e sem querer me apaixonei pelas lembranças da minha infância.

Eu não sabia de quem era a doce voz, quase falada por trás da narração daquela história de amor. Imaginava-me como a princesa linda de se admirar e que não conhecia a maldade. Ignorava os clichês e ficava triste quando ela sumia sem avisar, deixando meu herói sem saber o que a vida faria dele.

Durante anos essa canção ficou guardada na minha memória, junto a dezenas de outras lembranças da minha infância. Redescobri junto a outras músicas e no mesmo momento, senti a presença zelosa de meu pai esperando pacientemente que eu adormecesse.

Foi a minha primeira música. Aquela que a gente nunca esquece e que de tão nossa, acaba virando eterna.



Sobre partidas, saudades e amor

Não é mais choroso nem ao menos triste. Com o tempo aprendemos a nos despedir sem aliar a distância ao sofrimento. Mas nem sempre foi assim. Entre malas, rodoviárias e km e km de estrada, incontáveis lágrimas ficaram pelo caminho. Acostumei-me a partidas como quem se acostuma a verões intensos.

Logo após a tristeza do adeus vem a saudade. E essa, meus caros, consegue dar as coisas um sabor que nenhuma companhia diária jamais conseguiria. É a motivação para os dias tristes, solitários e sem graça. É a necessidade empolgante de contar as novidades mais intensas e emocionantes. É a graça do telefonema de final de semana, dos extensos e-mails. É o alimento do reencontro.

Não sei se saberia viver sem os tchaus e abraçosapertados. “A gente se vê logo”, digo eu sempre. O logo nem sempre é tão logo assim. Mas quem sem importa, quando a ausência sentida é a homenagem mais bonita que podemos prestar?